21/07/2009

Cigarrinho do capeta...

Para quem não sabe, o Oficial de Justiça também cumpre mandados de internação. São aqueles casos onde alguém da família é dependente de tóxico ou álcool e a própria família solicita ao Judiciário a internação da pessoa, muitas vezes, à força - o que é bem triste.

Felizmente, apesar da situação dramática aconteceu algo digamos, divertido.

Era um mandado de internação de um homem, aparentando uns 40 anos, onde era viciado em drogas, especificamente em maconha. Os cotidiano dele é bem diferente das pessoas normais: ficava acordado da meia-noite às 4h da madrugada - horário em que ele usava drogas - e no
restante do dia, dormia.

Sua mãe me disse que ligaria, me informando o horário em que ele estivesse dormindo, para que eu pudesse chegar com a viatura policial, mesmo porque não se usa o carro do Oficial de Justiça e também porque, na maioria das vezes, a pessoa resiste à internação.

Seis horas da manhã ela me ligou. Eu já estava na cidade porque no dia anterior ela tinha me explicado a diferença de horários do seu filho.


Ele lembrava o Krusty, aquele palhaço dos Simpsons (foto ao lado) pois era calvo na parte de cima da cabeça e cabelos grandes nos lados.

Pode ser pecado, mas que deu vontade de rir, deu sim!


Com o uso de drogas, tinha os olhos vermelhos e saltados, sem contar que a pele estava mais do que pálida.

Eu estava acompanhado de três policiais, que vieram numa pick-up da polícia, aquelas que possuem grades (como uma gaiola) na parte de trás para quem está detido. Foi tranquilo (agora sem trema) porque ele não reagiu. Simplesmente se levantou - e com a roupa que estava dormindo - nos acompanhou até a viatura.

O policial dirigindo, outro do lado do caroneiro, eu no banco de trás acompanhado do terceiro policial. O internado, na gaiola falando sozinho. De repente, ele me disse:

"Ei, moço! Vai um cigarrinho do capeta aí?" - ele nem tinha droga alguma, mas estava delirando.

Chegamos na clínica que fica na cidade vizinha - que é mais psiquiátrica do que de dependentes químicos - e ficamos todos numa sala esperando pela chegada do médico responsável. Silêncio total e, mais uma vez, ele me disse:

- "Eu sei que você vai me tirar daqui. Na verdade, não sou drogado, sou médium. Seu pai já morreu, né?

Respondi: - "Sim, já faz quase cinco anos."

- "Eu sei, estou vendo seu pai do seu lado, ele me disse que você vai me tirar daqui pra usar um cigarrinho do capeta junto comigo!"

Silêncio de novo.

Olhei para os policiais que estavam segurando para não rir. E para quebrar o silêncio perguntei:

- "Está mesmo vendo meu pai?"

- "Estou sim, do seu lado. Bem alto, olhos claros e bem forte".

É, realmente o "cigarrinho do capeta" faz bastante efeito, mesmo porque meu pai era baixinho, moreno e de olhos pretos. E certamente, se ele estivesse ali, daria boas risadas também...