30/11/2009

Um velho novo amigo

Como eu já mencionei antes em outras publicações, o Oficial de Justiça é um pouco de psicólogo. Ainda mais quando nos envolvemos emocionalmente com casos que encontramos no trabalho e foi exatamente o que aconteceu comigo.

Cumpri um mandado de imissão de posse que tem como autor, um senhor que, por questão de privacidade, vou chamá-lo de JF.

Pois bem, ele morava com a esposa na casa de ambos (que fica na região das praias), mas por problemas conjugais – que não vem ao caso - entraram com uma ação de separação – que ainda está em andamento - e ele foi morar num apartamento alugado no bairro Ponte do Imaruim, totalmente longe da região das praias. Ocorre que, assim que saiu de casa, teve um AVC, perdeu a fala, tem dificuldade de movimentação nos braços e nas pernas, só se alimenta com líquido ou comidas pastosas. Mas escuta bem e se comunica pela escrita, seja no papel ou mensagens de celular.

A imissão de posse foi ajuizada pelos irmãos dele, que até então estavam pagando uma “casa de repouso” para tratá-lo, mas como era oneroso demais, acionaram o Judiciário para que ele voltasse para sua casa para ser tratado ali, pagariam apenas uma pessoa para cuidar dele além de revezar entre os irmãos, ao invés de pagar uma clínica como estavam fazendo. E assim foi feito.

A casa situa-se num local onde eu passava diariamente e toda vez que isso acontecia, seja na ida ou na volta, ia visitá-lo. Percebi que, além da doença, a solidão é um grande problema.

Descobri – tudo pelo o que ele escreve – que possui um casal de filhos, que não o visitam e não falam com ele desde a separação com a esposa, que por sua vez, também não conversa com ele. Procuro não conversar sobre isso, mas sobre assuntos que, obviamente, o deixam animado.

Lembro muito do meu pai, que antes de falecer estava magro e abatido como ele e, às vezes, tentando se esforçar para se mostrar forte. Lembro também do meu avô materno, que teve Mal de Parkinson, onde tremia as mãos, coisa que JF não possui, mas escreve com muita dificuldade.

Sempre que passava por lá, eu levava alguma coisa, principalmente se fosse algo que ele pudesse comer, como gelatina, frutas, iogurte... Mas, o mais importante - e que eu percebo - é que a minha visita era mais valiosa e isso que me alegra muito, em estar fazendo tanto bem com tão pouco.

Um dia, pela manhã, me surpreendi com uma mensagem no meu celular: “Deus te proteja no teu trabalho. Além de ser meu amigo, te considero como um filho”... Inclusive, todas as manhãs me surpreendo com uma mensagem de "bom dia" enviada por ele.

Atualmente, os irmãos não tiveram condições de pagar a moça que cuidava dele (mesmo porque ela também ficou doente) e, infelizmente, ele voltou para a “casa de repouso” que, mesmo longe da minha nova região, será um dos destinos que farei, pelo menos uma vez por semana, para visitar meu velho novo amigo.

Que esta publicação sirva para aqueles que estão de mal com a vida, com quem quer que seja e, independente da desavença que tenha ocorrido, não perca tempo. É muito melhor perdoar, visitar, dar um alô, mandar um bilhete, dar um sorriso, enfim, demonstrar carinho e atenção, por mínima que seja. Não custa nada e não dói. E não é frescura não, é paz de espírito.

A imagem abaixo, me chamou muito a atenção o local onde o João-de-barro fez sua morada.

Este aí sim está bem protegido!