11/12/2009

Chuveiro e copo de vidro

Meus dias na nova região são realmente uma prova de fogo. Infelizmente, é mais ruim do que eu imaginava. Não pelo trabalho, mas pelo local. Saneamento básico, zero. Condições de moradia, zero. Segurança, zero.

A maioria das ruas são intransitáveis, não só por serem de terra, sem calçamento ou asfalto, mas por possuírem esgoto à céu aberto, com muito lixo orgânico, entulhos e muitas crianças brincando entre tudo isso, o que é pior. Ainda, na maior felicidade como se ali fosse o melhor lugar do mundo.

Segue uma prévia das imagens menos piores que eu encarei por lá:








E não pense que são somente algumas ruas que são assim na localidade denominada Frei Damião: são todas!

A situação piora quando chove, o lixo e entulho parece que triplica e as condições só pioram. Casas isoladas e sem acesso às ruas são os maiores problemas.



Aprendi e continuo aprendendo em cada dia que vou no Frei Damião, que não é porque o lugar é péssimo de se viver, ruim de acesso, feio de aparência, poluído, que não existem pessoas boas que sonham com um dia melhor, em meio à tantas dificuldades.

E uma dessas pessoas é o Sr. Assis. No primeiro dia em que fui lá, na segunda-feira passada, dia 07 de dezembro, fui no conhecido ponto de referência "Mercado do Ivan" e lá fui apresentado aoo Sr. Assis, também conhecido por Pastor Assis, que mora em frente ao mercado e atua numa igreja com pouquíssimos recursos, caindo aos pedaços, de madeira feita por ele no meio da favela.

Fui apresentado e conversamos bastante e, por força divina, ficamos amigos. Informou que não seria seguro eu andar sozinho por lá, por eu (ainda) ser desconhecido dos moradores, sendo que, como é um local de difícil acesso, a criminalidade lá se esconde porque a força policial nem sempre consegue chegar. Por conta disso, me acompanhou nas ruas e vielas procurando pelas pessoas.

Na ocasião, fomos na chamada "Rua da Vala", que é a primeira foto acima. Ele abençoou alguns moradores que pediram sua benção (é bem respeitado por todos) e enquanto isso, fiquei conversando com duas crianças que brincavam no entulho, entre garrafas plásticas e pedaços de madeira.

O menino, de aproximadamente nove, dez anos me disse:
- "Moço, sabe onde o Papai Noel mora?" - isso que ele tinha aproximadamente dez anos!
- "Não sei, mas sei mandar uma cartinha pra ele..."
E respondeu frustrado: "Mas eu não sei escrever..."
- "Então vamos fazer assim, você me diz o que quer escrever pra ele, eu escrevo e mando."
Ficou todo feliz e disse:
- "Quero pedir que ele traga um chuveiro. Eu vi na televisão. Deve ser bom tomar banho de chuveiro mas talvez eu vou pedir outra coisa, não sei se dá pra colocar lá em casa porque não tem energia..."

A menina foi a pior, ela emendou a conversa dizendo:
- Eu quero um copo de vidro.
- Copo de vidro? - eu perguntei sem entender.
- É, porque na minha casa a gente machuca a boca quando toma água"...

Detalhe: o Pastor Assis conhece a casa dela, não tem nada e tudo o que possuem, é recolhido do lixo e o "copo" que ela se refere, são latas de alumínio (extrato de tomate, leite condensado,...) que catam no lixão.

É triste demais e ainda reclamamos da nossa casa, do sol que bate demais ou de menos, do barulho e buzina dos carros, do vento que faz barulho na janela, da cor da casa que não gostamos, enfim...

Hoje fui lá novamente e a partir de amanhã, começaremos a arrecadar fundos para comprar doces para a criançada (fazer pacotinhos) e ele distribuir pela favela, junto comigo. Quem quiser ajudar, de qualquer forma, agradeço muito - entrem em contato comigo por e-mail ou telefone - e, inclusive, se quiserem me acompanhar até lá quando fizermos a entrega, será muito bem-vindo.

Sei que não podemos mudar o mundo, mas podemos sim fazer nossa parte, por mínima que seja.