15/12/2009

Meu primeiro ano, mais um amigo

Hoje, 15 de dezembro, faz um ano que assumi como Oficial de Justiça. E só tenho a agradecer à Deus, à todos que me incentivaram e me apoiaram neste tempo todo e, apesar da correria e muitos acharem que "funcionário público não trabalha", estou adorando a cada dia a minha profissão.

E como um presente pelo meu primeiro aniversário no trabalho novo, ganhei mais um novo amigo, que vou chamá-lo de Ed. Ele é parente do Pastor Assis - aquele que na publicação anterior, contei que foi comigo em algumas ruas para que eu pudesse me familiarizar com o lugar.

Tem quatorze anos, mal sabe ler e escrever, veio do oeste do estado e sempre foi acostumado com a vida no interior, onde trabalhava na lavoura. Mora no local há quase dois anos e conhece todo mundo.

O Pastor Assis me contou da preocupação com o menino, pois, com as férias escolares, ficaria ocioso num local onde não se tem o que fazer onde, segundo ele, a única "ocupação dos desocupados" é relacionada às drogas.

Então, como ele é um senhor conhecido e respeitado no local, eu não tenho um bom conhecimento do lugar e o menino é seu parente, na sexta-feira, sugeri que: sempre que eu fizesse aquele bairro, o Ed poderia me acompanhar, me mostrando os lugares, indicando as ruas e, por consequência, aprendendo um pouco mais.

O menino ficou radiante e disse:
- "Eu acho uma boa idéia, assim eu posso aprender a ler melhor já que eu posso ajudar a encontrar os números da casa..."

Negócio fechado!

E para que ele ficasse envolvido na tarefa e não pensasse em ficar nas ruas sem ter o que fazer, combinamos de que cada mandado que cumprirmos, vale R$ 1,00 e no final do dia, é divido entre nós dois. Esta sugestão de dividir eu não achava necessário, mesmo porque com a quantidade de mandados numa região onde os endereços são mais do que insuficientes, não renderia muito. Mas o Pastor Assis que assim sugeriu porque ele "vai valorizar mais o dinheirinho que ganha".

Cheguei de manhã e lá estava ele, de pé na frente da casa, de prontidão me esperando. Sua mãe me disse que ele ficou a noite toda acordado, ansioso.

E assim fomos: conversando, eu explicando pra ele como é o trabalho, as dificuldades, como devemos abordar as pessoas e, de repente, passamos pela professora dele. Pediu que eu parasse o carro e gritou: "Professora, olha eu aqui, estou trabalhando!" - todo feliz. Ela se aproximou e o elogiou e disse que ele deve ser o exemplo para os outros meninos da escola. Ficou radiante.

Perguntou se podia levar um CD evangélico para ouvirmos e "Deus nos ajudar a encontrar as casas". Topei - claro - mesmo porque toda ajuda é bem-vinda. E até que os céus nos ajudaram, consegui num período de cinco horas com ele, cumprir 10 mandados, R$ 5,00 para cada um. A cada mandado cumprido ele gritava: "Obrigado, Senhor!".

Perto do meio-dia fomos almoçar com grandes amigas minhas advogadas e ele, preocupado, porque nunca tinha almoçado fora de casa. Mas deu tudo certo, elas o deixaram bem à vontade e deram toda a atenção a ele.

Uma delas disse algo do tipo:
- "Quem sabe não vem um dia trabalhar no nosso escritório?"

Depois do almoço no carro ele comentou:
"Viu só? A moça até me convidou para trabalhar com ela um dia... eu vou é estudar bastante!"

Muito bom!

E de tudo isso, tiro uma boa lição: é comum generalizarmos as pessoas que moram em favelas, em lugares violentos, sem condições de vida adequeda, mas são pequenas atitudes - que para muitos podem não valer nada - mas para poucos pode ser o começo de uma boa mudança de vida.

Que Deus abençoe este menino.