16/01/2010

Rap do Brejarú

A volta do recesso do Judiciário, na quinta-feira, dia 07/01/2010, começou com muita chuva, congestionamentos no trânsito e muito trabalho. A maioria dos mandados que recebi é do bairro Brejarú, onde fica a comunidade (favela) Frei Damião.

Como já dito e visto nas publicações anteriores, é um lugar péssimo. E para piorar, o difícil acesso independe do clima. Quando chove, sem chance. Quando pára a chuva, pior ainda. Se tem sol e o clima está seco, o cheiro de esgoto é insuportável. E hoje estava assim, nunca me senti tão mal.

Meu principal objetivo era encontrar mãe e filha, para uma audiência importante na próxima semana, que moravam na Rua da Vala, a famosa rua com o maior esgoto à céu aberto que existe em toda a comunidade.

Tive que deixar meu carro no começo da rua e seguir à pé. Pergunta aqui, pergunta dali e nessas idas, a criançada vai se acumulando e acompanhando junto. Percebi que é um grande divertimento para elas, sendo que, em sua maioria, ficam ociosas.

Hoje conheci Cauã e Davi, que são primos e moram nesta rua. Os dois aparentando, respectivamente, seis e sete anos. Moram em casas tipo palafitas, em frente à famosa vala fedida de águas escuras, cheias de lixo e entulho. Cauã está na terceira série e o Davi, apesar de um ano mais velho, está na segunda.

Perguntaram como funcionava meu trabalho e eu disse que era procurar as pessoas a pedido do Juiz e entregar uma cartinha. Cauã me perguntou:

- “O juiz é quem manda, não é?”

- “É sim, ele que manda eu entregar as cartinhas para as pessoas.”

- “Não, tio. Quero saber se é ele quem manda em todo mundo.”

- “Como assim? Mandar em quem?”

- “Se ele manda em todo mundo, poderia falar pra ele mandar o prefeito arrumar a nossa rua. É tão ruim aqui, já peguei um bichinho na barriga e meu pai teve que me tirar duas vezes de dentro da vala.”

Seguidamente, o Davi completou:

- “Ontem minha mãe matou um rato na minha cama, mas eu não fiquei com medo, porque eu tava dormindo” – como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Eu não sabia se ria, se chorava, se saía correndo ou se levava os dois pra minha casa. Fiquei muito mal em imaginar como pessoas podem viver assim, num lugar tão ruim e tão perto de mim.

Cauã viu minha máquina fotográfica no bolso e perguntou:

- “Vamos bater foto das casas pobrinhas? Aí pode mandar pro juiz e ele manda o prefeito arrumar porque o Papai Noel nem conseguiu vir na nossa casa neste ano...

- “Certo! Vamos sim!” e lá fomos nós três pela rua da vala com a máquina fotográfica em punho...

No caminho, encontramos o pai do Cauã, que conversou bastante sobre o filho, que tem muito medo que ele se envolva com drogas, que trabalha no Ceasa ganhando R$ 3,00 por dia e sua esposa também.

Achou interessante a idéia de bater fotos, principalmente daquela rua, porque tem esperança que “caia nas mãos” de alguém que tente ajudar. Segundo ele, se a prefeitura conseguisse pelo menos o material, o pessoal, em clima de mutirão, arrumava tudo. Mas nem isso...

Com a idéia das fotos, me passou um CD que rola pela região com o Rap do Brejarú, feito pelos próprios moradores. Juntando minhas fotos de hoje e a música, fiz o vídeo abaixo.

Sinceramente, espero que sirva de reflexão sobre nossas vidas, sobre o que temos de bom, o que podemos dar de positivo para outras pessoas que precisam, o que podemos fazer de útil para ajudar alguém.

E quem não conseguir, coloque-se - nem que seja um minuto - no lugar de quem mora num lugar como das imagens abaixo: