25/05/2010

Atuando no trabalho

Em outras ocasiões eu já disse que um Oficial de Justiça também deve ser psicólogo para saber, principalmente, ouvir e orientar. Deve ser professor para explicar e indicar saídas e maneiras de resolver a situação da pessoa e, descobri, ultimamente, que temos um pouco de ator...
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Fui cumprir um mandado de busca e apreensão de uma moto. Caso simples: uma amiga (autora) emprestou a moto para outra amiga (ré). Esta sumiu com a moto, mudando de endereço, telefone e de trabalho - que amiga, não? - mas a proprietária localizou a moto e me ligou.
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Chegando no local, era um edifício residencial novo, com quatro andares, portão eletrônico e somente um apartamento com morador que - por azar - não estava no momento. Segundo ela, "achava" que a moto estava lá. Mas neste caso, só podemos fazer a busca se realmente o bem está no local informado, assim evita arrombar porta ou chamar chaveiro, essas coisas.
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Ocorre que, como o prédio é novo, haviam vários apartamentos desocupados com placas para locação. Liguei para a imobiliária e informei que gostaria de ver os apartamentos porque estava interessado em alugar um naquela região (mentira! Que pecado!). Na verdade só queria dar um jeito de entrar e confirmar se a moto realmente estava ali.
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Quinze minutos depois chega a representante da imobiliária. Perguntou se eu tinha interesse em algum andar e eu disse que não, somente que tivesse garagem (pois era lá que a moto estava!). Mostrou três: um quarto, dois quartos e três quartos quando, finalmente, fomos na garagem e lá estava a moto da moça, que por sua vez, estava apavorada do lado de fora aguardando ansiosa.
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Aí eu - com a maior cara de desentendido - disse: "Que coincidência! Estou procurando esta moto porque existe um mandado de busca e apreensão. Um minutinho que eu preciso ligar para a legítima proprietária...".
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Liguei e expliquei que estava dentro do prédio, confirmei que a moto era aquela e que estava tudo bem. A moça da imobiliária não entendeu nada, abriu o portão, a moto foi levada pela proprietária e eu ganhei o cartão da imobiliária no caso de eu decidir alugar algum dos apartamentos.
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Assim, se caso alguém tiver interesse, recomendo um dos três apartamentos, são amplos, arejados e novos. Missão cumprida!
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A outra foi com uma oficina que arruma geladeiras. O proprietário estava se omitindo e mentia que não era ele quando outro Oficial de Justiça fazia aquela a região.
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Cheguei depois do almoço e a oficina fechada. Parei o carro do outro lado da rua onde tinha um bar. Pedi um refrigerante e fiquei esperando alguém chegar para abrir a oficina. Perto das 13h chega um casal e abre o estabelecimento, esperei uns cinco minutos e liguei para o telefone que estava na fachada do imóvel.
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A moça atendeu e eu disse: "Eu tenho três geladeiras usadas e gostaria de saber se arrumam porque eu pretendo colocar na minha pousada" (um dia quero ter uma pousada). E ela, mais do que rapidamente disse: "Um minuto que vou chamar o "fulano de tal". Bingo! Era o moço que eu procurava. Enquanto ela foi chamá-lo, "sem querer" a ligação caiu. Esperei mais uns dez minutos no bar do outro lado da rua, pedi uma água mineral e depois, fui na oficina.
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Chegando lá, fui direto no moço que, obviamente, disse que não era ele e que, quem eu procurava era "seu cunhado", mesma desculpa usada com o outro Oficial de Justiça. Pedi seu documento de identificação e disse que não tinha. Então respondi que, infelizmente, eu teria que chamar a força pública (polícia) porque eu tinha informações de que ele é realmente a pessoa que eu estava procurando. E assim, ele recebeu o mandado. Novamente, missão cumprida!



Uma coisa é certa: o Oficial de Justiça é, sobretudo, um ator.
A única diferença que seu palco é o cotidiano.