12/08/2010

Pequenos grandes desejos

Comecei a nova região com muito bom-humor - e isso é um bom sinal! Não só por ser um lugar tranquilo, mas porque o primeiro mandado que recebi constava - equivocadamente - a cidade de Palhoça escrita como "Palhaço". E pior, não foi erro de digitação, porque a expressão errônea se repetia várias vezes no documento.


O trabalho na novo local está tranquilo. Como todo início começam as descobertas: caminhos mais curtos, ruas ou servidões que não aparecem nos mapas da cidade, pontos de referência e tudo o que possa facilitar o trabalho de agora em diante.
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Como fiquei oito meses na região da comunidade Frei Damião, confesso que estranhei um pouco, não pelas melhores condições de trânsito, facilidade de encontrar a maioria das ruas com casas numeradas; mas por não ter tanto contato com as pessoas como eu possuía no antigo zoneamento.
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É uma região bonita, um pouco conturbada por conta da duplicação da BR 101, mas assim como a maioria dos moradores que ali residem, espero que tudo logo se ajeite. A parte que eu mais gosto é a chamada Enseada do Brito, próximo ao Morro dos Cavalos, onde tive o privilégio de fazer belas fotos:
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Desde que comecei o trabalho como Oficial de Justiça encontrei nas várias regiões, pessoas cujas vidas surpreenderam-me, enobreceram-me, fizeram-me rir e chorar. E já nessa nova localidade, conheci uma senhora muito especial.

Seu nome é Rosária, oitenta anos, que me atendeu numa educação inexplicável. Sua casa é bem simples numa localidade denominada Pontal (um dos locais da região que atualmente faço), estava na janela da casa, vendo a movimentação da rua. Parei o carro para pedir informações, me orientou sobre quem eu procurava e falou toda empolgada:

- "Eu te conheço! Você é o menino do jornal, não é? Eu sei que é, eu vi!"

Depois que eu confirmei, saiu de dentro de casa e veio para a porta, toda contente. Pediu que eu sentasse para conversar com ela, porque "passa muito tempo sozinha e depois que os filhos casaram, quase não aparecem por lá". E assim fiz.

Ela contou que veio de Lages/SC, que trabalhava na roça desde cinco anos de idade e que mora em Palhaç..., ops, Palhoça, há quase dois anos. Falou que recebe a aposentadoria do marido, que recebe ajuda da vizinhança e dos filhos, contou sobre os bailes que ia com seu falecido esposo, da sua casa cheia de visitas e viajamos no tempo ouvindo as histórias dela. Com a empolgação, perguntei o que ela realmente gostaria de fazer. Mais do que rapidamente, respondeu:

- "Tomar chimarrão! Faz tempo que não tomo chimarrão. Tenho a cuia e a bomba, mas não dá pra comprar a erva"...

Naquele instante lembrei dos pequenos grandes desejos do pessoal do Frei Damião que conheci. Coisas tão pequenas e tão insignificantes para muitos e importantes para outras. Disse que qualquer hora eu passaria para tomar chimarrão com ela (eu não gosto muito).

Na hora de eu ir embora, ela me deu um abraço tão forte - em forma de agradecimento - que percebi o quão importante foi passarmos aqueles momentos juntos, pelo simples fato de ouvir suas antigas histórias.

Uma coisa é certa: as pessoas podem não lembrar exatamente o que você fez ou disse mas certamente sempre se lembrarão de como você as fez sentir.

Amanhã tem chimarrão!